Uma empresa pode oferecer fones com redução de ruído, trabalho remoto e treinamentos sobre neurodiversidade e, ainda assim, manter formas de trabalho que fazem a pessoa neurodivergente se sentir inadequada, dependente de autorização ou pressionada a agir conforme padrões neurotípicos.
É esse problema que Frederike Scholz, Amber Kersten e Joanna Maria Szulc discutem no artigo From inclusion to (neuro)divergent safe space in organizations, publicado em 2026 no International Journal of Management Reviews.
Em uma frase: incluir não é apenas permitir que a pessoa neurodivergente realize o trabalho; é criar condições para que ela tenha autonomia, preserve seu bem-estar e possa ser quem é no trabalho.
1. Por que isso importa?
Muitas iniciativas de inclusão começam somente depois que uma pessoa encontra uma barreira e solicita uma adaptação. Embora acomodações sejam necessárias, uma política predominantemente reativa pode deixar intactas as normas que produziram a exclusão: uma única maneira considerada correta de comunicar, participar de reuniões, cumprir horários, interagir socialmente ou demonstrar competência.
Nessas condições, a pessoa até pode receber apoio para executar suas tarefas, mas continua sujeita a explicar repetidamente suas necessidades, pedir permissão para se regular ou esconder aspectos de sua neurodivergência para ser aceita.
O artigo propõe mudar a pergunta. Em vez de apenas perguntar “qual adaptação esta pessoa precisa?”, a organização também deveria perguntar: “o que precisa mudar nas relações, no ambiente e na forma de organizar o trabalho para que diferentes pessoas possam trabalhar com segurança, autonomia e dignidade?”
2. O que a pesquisa investigou?
Os autores realizaram uma revisão crítica da literatura para compreender como as organizações procuram criar espaços seguros para e com profissionais neurodivergentes.
- Tipo de estudo: revisão crítica orientada pelo conceito de espaço seguro e pelo modelo social ampliado da deficiência.
- Bases consultadas: ProQuest, PsycINFO e Web of Science.
- Data da busca: outubro de 2024.
- Registros: 1.756 resultados; 1.264 após a retirada de duplicidades.
- Amostra final: 31 artigos — 16 qualitativos, 8 quantitativos, 2 de métodos mistos e 5 conceituais.
- Foco: práticas organizacionais, pessoas envolvidas e efeitos percebidos sobre profissionais neurodivergentes.
Um ponto importante: o artigo não testou uma intervenção em uma empresa e não realizou uma meta-análise de efeitos. Ele reuniu e criticou o conhecimento disponível para propor uma nova estrutura conceitual.
3. O que foi encontrado?
Três grupos de práticas já aparecem na literatura
- Relações sociais no trabalho: cultura inclusiva, apoio de gestores e colegas, comunicação adaptada, mentoria, treinamento, políticas claras e reconhecimento.
- Ambiente físico: espaços silenciosos, redução de estímulos sensoriais, ajustes ergonômicos, tecnologias assistivas, instruções escritas e ambientes privativos.
- Organização flexível do trabalho: ajustes no recrutamento, nas tarefas, nos horários, nos prazos, no local, na comunicação e nas expectativas de participação social.
Essas práticas costumam aparecer de forma fragmentada. Uma empresa pode flexibilizar o horário, mas manter relações de liderança que desencorajam seu uso; ou oferecer uma sala silenciosa, mas exigir autorização sempre que alguém precisa se retirar de uma situação de sobrecarga.
O modelo dos quatro espaços
- Espaço seguro social-relacional: relações, normas e formas de comunicação que não tratem a diferença como inadequação.
- Espaço seguro físico: condições materiais que reduzam barreiras e sobrecarga.
- Espaço seguro autônomo: liberdade real para ajustar como, quando, onde, por quanto tempo e com quem o trabalho é realizado.
- Espaço seguro interior: condições para preservar o bem-estar psicoemocional, desenvolver um sentido positivo de si e agir com autonomia.
A principal contribuição do artigo está na quarta dimensão. Grande parte das iniciativas se concentra em remover barreiras para aquilo que a pessoa pode fazer, mas dedica menos atenção às condições necessárias para que ela possa ser quem é no trabalho.
Espaço seguro não significa ausência de desconforto
Um espaço seguro não é um ambiente sem conflitos, tensões ou conversas difíceis. É um ambiente capaz de sustentar essas situações sem transformar a diferença em punição, deslegitimação ou exclusão.
O conceito também é mais amplo que a segurança psicológica tradicional: além dos riscos interpessoais, questiona normas de trabalho, relações de poder e os efeitos dessas estruturas sobre identidade, autonomia e bem-estar psicoemocional.
4. O que isso significa para organizações?
Acomodação isolada não substitui mudança organizacional
Fones, salas silenciosas e horários flexíveis podem ser úteis, mas seus efeitos dependem das relações de trabalho, das regras e da autonomia para utilizá-los. As práticas precisam funcionar como um sistema coerente.
A pessoa neurodivergente deve participar do desenho das soluções
A recomendação é construir soluções com os trabalhadores neurodivergentes, respeitando diferenças entre pessoas, perfis e contextos. Uma acomodação útil para alguém pode ser inadequada para outra pessoa.
Flexibilidade precisa ser utilizável sem custo social
É necessário verificar se a liderança permite o uso da flexibilidade sem penalizar a imagem profissional, a avaliação de desempenho ou as oportunidades de carreira.
A comunicação cotidiana é parte da infraestrutura de inclusão
Agendas antecipadas, instruções claras, feedback direto e respeitoso, opções de comunicação escrita e regras informais explicitadas reduzem ambiguidades desnecessárias.
A responsabilidade não pode recair apenas sobre o empregado
Quando toda adaptação depende de diagnóstico, revelação da condição e insistência individual, a organização transfere ao trabalhador o custo de corrigir barreiras que ela própria mantém.
Interpretação aplicada — potencialidades e capacidade organizacional: um espaço seguro neurodivergente pode ser compreendido como uma condição habilitadora para que potencialidades individuais sejam mobilizadas no trabalho. Ele não constitui, por si só, uma capacidade organizacional e não garante desempenho, inovação ou vantagem competitiva. Essa conversão dependeria da incorporação das práticas ao desenho do trabalho, à liderança, às rotinas, à aprendizagem e à governança — relação que o artigo não testou empiricamente.
5. Limites do estudo
- A maior parte da literatura foi produzida no Norte Global.
- Mais da metade dos trabalhos concentrou-se em autismo.
- A revisão incluiu apenas artigos publicados em inglês.
- Parte dos estudos priorizou a visão de gestores, supervisores ou empregadores.
- A literatura disponível é predominantemente descritiva e apresenta práticas fragmentadas.
- O modelo dos quatro espaços ainda precisa ser testado e refinado por pesquisas empíricas.
Assim, o artigo oferece uma lente promissora para diagnóstico e desenho organizacional, mas não permite concluir que essas práticas produzirão, por si só, melhores resultados de desempenho, retenção ou inovação.
6. Perguntas para gestores
- As pessoas neurodivergentes participam das decisões sobre políticas, ambientes e formas de trabalho que as afetam?
- O acesso a apoio depende obrigatoriamente de diagnóstico formal ou da revelação da condição?
- Quais regras não escritas de comunicação, sociabilidade e “postura profissional” favorecem apenas um padrão neurotípico?
- A flexibilidade pode ser utilizada sem punição informal, estigma ou prejuízo à carreira?
- Os trabalhadores podem escolher, dentro dos limites da função, como, quando, onde e por quais canais realizar o trabalho?
- Existem meios seguros para se retirar temporariamente de situações de sobrecarga?
- As lideranças recebem orientação prática para adaptar comunicação, feedback, reuniões e distribuição de tarefas?
- A organização verifica se suas políticas são acessíveis, utilizadas e percebidas como legítimas?
- Quem assume o esforço de identificar e remover barreiras: somente o empregado ou também gestores, RH e equipes?
- As práticas atuais ajudam apenas a executar tarefas ou também protegem autonomia, identidade e dignidade?
7. Referência
Scholz, F., Kersten, A., & Szulc, J. M. (2026). From inclusion to (neuro)divergent safe space in organizations. International Journal of Management Reviews, Article e70019. https://doi.org/10.1111/ijmr.70019
Referências
Scholz, F., Kersten, A., & Szulc, J. M. (2026). From inclusion to (neuro)divergent safe space in organizations. International Journal of Management Reviews, Article e70019. https://doi.org/10.1111/ijmr.70019
Pergunta para a prática
Sua organização depende do esforço de adaptação da pessoa ou possui condições que sustentam sua contribuição?
Síntese interpretativa das evidências. Evidência moderada para mapear práticas e exploratória para afirmar os efeitos do modelo proposto. A conexão entre espaço seguro e capacidade organizacional está identificada no texto como interpretação aplicada do autor do site.
Sobre este textoConteúdo de divulgação científica e reflexão gerencial. Não substitui avaliação individual, orientação clínica ou análise contextual da organização.